Inspiração muito mais do que transpiração

Todos que entram em uma organização tem na mente a idéia de “fazer a diferença”. Poder ser parte de algo maior, transformador na sua história. mas pergunto-me: mais do que em resultados específicos e em ações tangíveis, como identificamos esse “fazer a diferença” no dia a dia das organizações e principalmente, das pessoas que as constituem? E indo além, porque com o passar do tempo esse sentimento se esvai?

É engraçado como as pessoas nas organizações se definem como os “que estão chegando agora e ainda não sabem como as coisas funcionam aqui” e os que “já estão há muito tempo e sabem como as coisas funcionam aqui”. É como se com o passar do tempo, a apatia tomasse conta das pessoas e elas passassem a atuar por repetição. Passa a não mais existir razão de ser no que é feito, mas simplesmente existem “coisas a fazer”. Por quê? Nem nós mesmos sabemos, muitas vezes.

Para onde vai aquele sentimento que faz qualquer um pensar “essa pessoa tem um plano e ela vai levá-lo a cabo”? Aquela vontade, aquela ânsia e gana, muito além da ação por si só. aquele amor do novo enamorado? Dizem que quando alguém está apaixonado, nota-se de imediato. Fica “escrito na testa”, como dizemos. Notamos isso seja no olhar, na fala, nos gestos. Quando reflito sobre esse sentimento, pergunto-me sobre como podemos inspirar as nossas equipes a pensarem que essa paixão, essa urgência de quem ama, é fundamental.

Quando alguém decide empreender, é muito comum ouvirmos que ela está feliz da vida mesmo tendo que lavar o chão, atender o telefone, pagar as contas e fazer o serviço. Ela agora faz porque aquilo é seu e como tal, precisa dar algo mais. mas se você pedisse a essa mesma pessoa para fazer isso quando funcionário, já com mais de cinco anos de casa, será que a motivação, que a inspiração em fazer aquilo seria a mesma?

Acredito que a grande questão da inspiração permeia em como forjamos esse sentimento de propriedade nas pessoas. Como criamos esse gosto de que isso é seu e se deve zelar por ele. Precisamos transmitir e inspirar as nossas equipes a se apaixonarem pelo que fazem, convidando-as a compreender aquela “boa nova” e o quanto se acredita naquilo, em vez de simplesmente esperarmos que elas façam o que decidimos e que fazendo, os sonhados resultados acontençam.

Alguns podem dizer que só as ações bastam, que as palavras não importam. que transbordar essa paixão por algo não importa. Como disse certa vez o presidente americano Barack Obama, será que só as ações de Martin Luther King bastariam? Ou quando ele disse “eu tenho um sonho” diante de milhares de pessoas, fez a diferença? Será que as palavras, que a paixão não importam?

O filósofo Arthur Schopenhauer em sua obra “A Arte de Ter Razão” afirma que como apresentamos as palavras é por vezes mais importante do que a mensagem. É verdade que discursos não resolvem nossos problemas, mas também é verdade que se não conseguimos inspirar as pessoas a acreditarem, não importam as estruturas, ferramentas e controles que implementamos.

Precisamos inspirar. Mais do que desenvolver modelos, produtos e serviços para atender ao mercado, precisamos transformar e inspirar as pessoas dentro das organizações. Precisamos fazer que acreditem que vale a pena, que precisamos tentar. Que tenham e sintam propriedade no porque fazem o que fazem. pois façamos. Façamos de forma diferente, pensemos de forma diferente, sintamos de forma diferente. inspiremos nossas equipes a acreditar que é possível e se tem um propósito. esse provavelmente seja o principal propósito de um líder: inspirar.

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Quando falar dos seus empregos anteriores, prefira as miniséries às novelas

É muito comum tratarmos nossas experiências passadas nos baseando na dicotomia do bom e do ruim. Do certo e do errado. Tanto isso é fato que usamos o símbolo da moeda como melhor representante figurativo do que é a vida. Justamente nesse cenário de medições extremas que invariavelmente avaliamos nossas experiências profissionais.

Cedo ou tarde você se verá na situação na qual esteja a procura de novas oportunidades de trabalho. Ou por ter sido demitido, ou por ter pedido demissão, ou por qualquer outro motivo que transforme seu status em “disponível”. E nesse processo, eis que finalmente surge aquela entrevista dos sonhos, naquela empresa que você sempre sonhou em trabalhar e que representa exatamente o oposto do seu emprego anterior – de uma forma positiva, obviamente. Na ocasião da entrevista, você é questionado a cerca dos seus trabalhos anteriores, naturalmente. E é aí onde mora o problema!

Na ânsia de mostrar ao entrevistador sobre o quão entusiasmado você está com a eminente possibilidade de trabalhar na empresa dos seus sonhos, são comuns comentários dos postulantes a vagas que alfinetam ou criticam as empresas em que trabalharam, ou dos chefes que tiveram, em uma comparação até certo ponto bem intensionada em evidenciar o oposto do que faz a possível nova empregadora. Engana-se, porém, aquele que pensa que a grama do vizinho sempre é mais verde que a sua, ou que os novos chefes são sempre mais legais e bem preparados. Maquiavel disse certa vez que “os homens mudam de senhor com prazer, pois acreditam que melhorarão; tal crença os fará tomar as armas contra o antigo, cometendo um erro, pois vêem, depois, com a experiência, que pioraram.” Ou seja, aquele que está diante de você neste momento, provavelmente será o seu “futuro ex-chefe”. Tenha certeza que, dependendo de como você narre suas experiências anteriores, ele pensará duas vezes antes de empregá-lo, não por você ter criticado seu ex-chefe, mas sim, por ele se imaginar nessa posição no futuro. É a velha história de “não faça com os outros, o que não quer que façam com você”.

Por outro lado, o caminho dos elogios excessivos também é arriscado. Deve-se ter cuidado quando a narrativa sobre seus empregos anteriores mais se parecem com um daqueles quadros de domingo em que uma personalidade artística é homenageada. Você quase se debulha em lágrimas de emoção ao falar dos seus antigos companheiros de trabalho, seu ex-chefe, aquela copeira que sempre trazia um cafezinho no ponto às três horas da tarde. Ou seja, com certeza essa não é uma cena muito favorável para você. Principalmente porque irá despertar a pergunta do porque você saiu de onde estava.

Sem dúvida o valor das suas experiências é fundamental, não a toa que a seleção de emprego se dá através de uma entrevista. Contudo, o foco deve ser centrado nas suas experiências e como essas agregaram valor para o profissional que você é agora, ou sobre o que você pode oferecer-lhes neste exato momento. Especialmente no caso do brasileiro, que naturalmente é chegado a uma novela, a tendência às narrativas emotivas é quase biológica. Na dúvida sobre como narrar sua história profissional, prefira uma minisérie de poucos capítulos em vez das novelas. Afinal, não esqueçamos, todo bom brasileiro também jura de pé junto que não gosta de novela.

Comunique-se com qualidade

Existe uma grande diferença entre falar e comunicar. O ato de falar é unicamente o discorrer de uma série de fatos e acontecimentos, que podem ou não estarem ligados. Comunicar é o algo mais. Não é só relatar, mas ilustrar possíveis caminhos alternativos para o que foi tomado na ocasião. É refinar o que é minúcia e o que é detalhe descartável. É efetivamente garantir que a mensagem que você tem a passar, chegue e seja compreendida pelo interlocutor.

Se você fizer uma retrospectiva da sua vida, verá que teve diferentes formas de se comunicar ao longo dos anos. Começa quando você era criança, onde tudo e todos parecem compor uma só história: “O Pedrinho me bateu, aí eu comi um lanche, aí a professora falou que não fiz boa prova, daí eu fui pra casa”. Na adolescência, as coisas ganham detalhes desnecessários e muitas vezes, fictícios, por assim dizer. O que era para ser: “Vinha passando pela rua perto do colégio, então vi um cara do outro lado da rua que olhou em minha direção, me seguiu e na outra esquina pediu que eu entregasse minha carteira.”, se transforma em: “Você sabe que eu tenho freqüentado a academia não é? Então, resolvi ir caminhando até o colégio, para esticar as pernas, você sabe, manter o físico em forma, afinal de contas, irei bater um papo com a Mariazinha na festa do sábado. Enquanto eu passava a mão no cabelo, percebi logo a presença de um cara bastante suspeito do outro lado da rua. Ele pensou que não, mas notei que ele estava me seguindo, provavelmente com algum interesse de roubar. Fiquei atento, para tentar pegá-lo desprevenido. Quando virei na esquina, o cara veio por trás e conseguiu me imobilizar. Depois de muito esforço, levou a minha carteira. Ainda consegui me desamarrar e perseguir o sujeito, mas ele conhece o bairro melhor do que eu, então conseguiu fugir. Mas vou te dizer uma coisa: se eu morasse nesse bairro há 15 anos, em vez de 14, você ia só ver! Com certeza eu pegava o safado!” Se todo evento fosse narrado dessa forma, provavelmente os taquigrafos pensariam duas vezes antes de escolher a profissão. Ou seriam muito ricos. Enfim… E por último, a fase adulta, que se entende como a fase profissional, onde você de fato se utiliza da comunicação como ferramenta de trabalho. É tão importante que consta no currículo profissional. “Comunicação: pense num Faustão!”

O ato de comunicar é a fase final de todo um ciclo de uma atividade ou processo que vem se desenhando dentro de um período de tempo e que envolve pessoas ligadas diretamente ou indiretamente a ele. Ou seja: comunicar é acima de tudo saber lidar com pessoas.

– Meu filho, seus pais morreram e você agora é órfão. Reze para que seja adotado por uma família que não seja de ladrões.

Já imaginou se todo médico desse uma notícia dessa forma? Muitas vezes uma comunicação ineficaz é a primeira etapa de uma série de acontecimentos equivocados em torno de um tema. Quando ela por si só não é a causadora do problema como um todo. É preciso saber que a variável fundamental na comunicação são as pessoas. Elas não são meros coadjuvantes da conjuntura. São de fato os protagonistas. Por vezes confunde-se que bom comunicador é aquele que fala tudo, não tem “papas na língua”, como dizem. Falar tudo que se quer não é ser um bom comunicador, senão possivelmente ser egoísta. Quando falamos o que bem queremos, sem considerar como o interlocutor receberá, fazemos isso muito mais por nós mesmos do que pelo objetivo de se fazer compreendido. É fundamental compreender como se receberá a mensagem, qual o objetivo se destina da assertiva, contexto, momento… De fato comunicar não é fácil.

É importante se ter uniformidade na forma de se comunicar, tratando e dialogando da mesma forma com pessoas que estejam acima ou abaixo de você hierarquicamente. Obviamente toda regra tem exceção, afinal, você não utilizará o mesmo vocabulário com o motorista de uma transportadora que utiliza com o presidente da mesma. São objetivos distintos e certos jargões são restritos às respectivas funções. No entanto a particularidade de comunicação não é distinção de tratamento. Todos são seres humanos e precisam ser respeitados, não só como pessoas e profissionais, mas como seres detentores de particularidades.

– Você é meu melhor Analista, sabia? Seu gordo safado!

Ninguém vai chegar para uma pessoa gordinha que não se sente bem com seu próprio corpo e elogiá-la sobre um trabalho bem executado, lembrando-lhe da sua condição física. É jogar o elogio pelo ralo. Comunicar-se não é relatar os fatos como as pessoas querem ouvir, mas sim relatar os fatos e alternativas da forma que o ouvinte as falaria. Metaforicamente falando, obviamente, pois não faria sentido um paulista falando com sotaque mineiro só em função de o chefe ser de Minas Gerais.

Descobrindo a si mesmo

O ser humano tem em sua essência a busca por descobrir a si mesmo. Quando nos propomos a traçar caminhos, penso que o primeiro passo é ter um desenho mental de onde se quer chegar. Se pensarmos no sucesso como algo planejável, acredito que o exercício ideal nesse caso é pensar “e se meu sonho se realizar, como será minha vida?” Essa análise é interessante porque muitas vezes o plano da conquista sobrepõem o valor do objeto conquistado. O filósofo grego Aristóteles disse que “Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo que amar e algo o que esperar.” Essa é para mim é uma das assertivas mais interessantes que já vi. Mas pensemos que considerando que esperamos algo, sabemos pelo que esperar. Planejamos essa tal coisa vindoura. Ao pensar que muitas pessoas levam suas vidas sem o mínimo de planejamento ou conhecimento de si mesmo, como essas pessoas sentem o sabor da “felicidade por ter o que esperar” se nada esperam, nada planejam?

Estabelecer objetivos na vida é fundamental. Para isso, creio que o mais valioso ensinamento que tive é que antes de sabermos o que queremos, precisamos ter certeza do que não queremos. Se ganha muito tempo quando temos certeza daquilo que vai de encontro aos nossos planos. Não ocorre o desgaste por ponderar algo que, sob olhares mais perspicazes, seria visto como algo sequer passível de dúvidas. Mas existem aqueles que dizem: “Mesmo sabendo o que não queremos, vale a pena ouvir e analisar as propostas.” Prefiro acreditar que não. O conhecimento de si mesmo é uma espécie de ideologia. Não faz sentido oferecer uma carreira de executivo a um homem de estreito vínculo com raízes, como: família, amigos, a cidade onde nasceu. Eventualmente sua profissão até poderá ser um sucesso, mas sua vida pessoal não. Sempre vai faltar algo.

Conhecer a si mesmo é uma arte. Temos facilidade em identificar nossas qualidades, mas dificilmente enumeramos de forma plena nossas deficiências. Quando conhecemos nossas falhas, é possível aprender como manipulá-los favoravelmente. É o que define a Inteligência Emocional. Tenho uma historia interessante sobre isso. Certa vez um amigo que sofre de eventuais crises de gagueira me contou um truque que usava para desviar a atenção de um outro amigo que gostava de fazer comentários maldosos sobre sua gagueira na frente dos outros. Perguntei a ele como fazia quando suas crises de gagueira atacavam. “Ah, o problema não são as crises.”, disse ele. “O difícil é aguentar o Fulano caçoar de mim na frente da turma do colégio.” O ser humano pode ser muito cruel, as vezes. Eu, com meu sangue quente, disse-lhe que deveria dar uma lição de moral no dito cujo na frente de todo mundo. E eis que ele me deu uma aula de inteligência emocional. “Nada disso, cara. Sabe aquela coisa que se você joga água em óleo quente pegando fogo, as chamas pioram? Não faz sentido. Sempre que me encontrava com o tal Fulano, apressava-me em elogiá-lo imediatamente. Ah cara, adorei sua camisa! Está malhando? Está mais magro, cara. Vem cá, me dá um abraço! Nunca mais nos vimos!”.

Fiquei pensando alguns segundos sobre a dita estratégia dele. “Isso é pura política.”, pensei. Percebendo minha incompreensão, ele pontuou. “Não entendeu, não é? Se aquele cara resolve ser indelicado e grosseiro comigo na frente dos outros, logo depois de eu ter sido tão simpático com ele, o feitiço viraria contra o feiticeiro. Sabe o que ele faz? Nada! E mantenho assim minha relação com ele. Eventualmente massageando seu ego e despistando-o com coisas positivas.” Achei aquilo fantástico! No fundo, o tal Fulano sabe que é um idiota. Mas entre ele saber e tornar isso público e explícito, aí é diferente. Uma aula de autoconhecimento.

A compreensão de si mesmo não é identificar manias, gosto por comidas ou música. Isso é o óbvio cotidiano, algo que qualquer pessoa com algum tempo disponível ao seu lado passaria a conhecer. O que de fato é conhecimento de si está relacionado a questões intangíveis, que vão além das situações expostas no dia-a-dia. Falo de reações diante de situações corriqueiras, de comentários em conversas estreitas, da maneira como trata as pessoas que lhe pedem ajuda. Como disse anteriormente, conhecer a si mesmo vai muito além do óbvio.

Você deve saber respeitar seus limites, pois do contrário do que dizem por aí, todos nós temos limites e eles são extremamente importantes. O medo é uma ferramenta que se utilizada de forma sábia, poderá não só tirar-lhe de situações adversas como evitar que elas ocorram. O medo nada mais é do que uma análise adicional diante de algo que não conhecemos. Não se deve confundir medo com covardia. O covarde não faz nada por que tem medo. Aquele que tem medo mas não é covarde, reconhece as possíveis conseqüências decorrentes dos seus atos, hesita, teme, mas segue em frente. Sendo assim, não se culpe por ter medo. Aprenda a conhecer os seus medos e transforme-os de forma que eles trabalhem a seu favor.

Conhecer-se é refletir sempre. Mesmo enquanto estiver realizando uma atividade. É deixar o subconsciente funcionar, mas estar atento quanto ao seu funcionamento. É captar as mensagens nas entrelinhas dos seus atos. Dessa maneira, em algum tempo, você de fato conhecerá a si mesmo profundamente, e a partir disso, conseguirá perceber melhor aqueles que estão a sua volta. É manipular a si mesmo para compreender aos outros.

Mas nem só de maravilhas é composto o autoconhecimento. É comum àqueles que se conhecem de forma legítima, se utilizarem desse parâmetro para avaliar terceiros e isso é um grande erro. Todos somos compostos de prós e contras. Assim como seus defeitos podem e serão encontrados em outras pessoas, isso também ocorrerá para suas qualidades. De tal forma, tente colocar-se na perspectiva da outra pessoa e analisar a situação na qual ela está inserida e suas atitudes e formas de pensar começarão a fazer todo sentido. Isso não as torna nem certas nem erradas, mas se mostrarão perfeitamente cabíveis diante da conjuntura. A análise do ambiente é o que definirá o critério de reconhecimento dos perfis que nele se encontram, já que o homem é um resultado da situação.

Entrando pela toca do coelho

Hoje eu começo uma nova iniciativa – entre tantas outras abarrotadas nas poucas 24 horas do meu dia. “Entrando pela toca do coelho” é o nome dessa iniciativa. Trata-se de uma coluna semanal que publicarei aqui no blog. Qual a ideia? Bom, primeiro de tudo, despejar um pouco das ideias e pensamentos que permeiam essa pequena cabeça – bondade minha – que não para. Segundo, porque eu gosto de escrever. Terceiro… Bom, o terceiro espero descobrir mais adiante. A ideia é que as colunas sejam publicadas todas as segundas, mas hoje, excepcionalmente, começarei em uma terça. Isso é parte de uma estratégia? Há um significado subliminar nessa disruptura de planos? Não, na verdade já estava com o texto pronto, o blog começaria na próxima semana, mas resolvi publicar hoje mesmo. Voilá!

E hoje abro essa nobre e promissora coluna – assim espero – pensando sobre como é interessante como o mundo profissional está se confundido com a vida pessoal de cada um de nós. Vivemos em um tempo confuso, onde práticas de liderança são levadas para dentro das nossas casas. Tratamos nossos filhos como comandados, somos seus líderes e gestores, buscando como objetivo principal o seu sucesso pessoal entre o universo competitivo que é o Jardim da Infância. Mas, como assim? Competitividade na escola? Entre crianças de três a nove anos? Aparentemente sim. Afinal de contas, ninguém quer que seus filhos não saibam “quem mexeu em seus queijos”, ou que eles não consigam “fazer amigos e influenciar pessoas”. Não deixo de me perguntar: se formarmos tantos líderes como desejamos, não sobrará ninguém para ser liderado. Ou seja, fora a prática meramente mercantilista dos que difundem a liderança como produto de prateleira, o propósito é no mínimo questionável. A confusão é generalizada.

Outro dia, fui com um amigo a uma pizzaria. Chegando lá, a sentarmos a mesa, percebemos que não tinham aqueles potes de saches com ketchup, mostarda e maionese. Sem hesitar, perguntei ao garçom se ele poderia trazer os condimentos. Um tanto quanto desconfortável, o rapaz me respondeu que o estabelecimento estava cobrando pelos molhos. Levantamos e fomos embora. Na saída, entre uns resmungos e protestos, meu amigo largou a pérola: “Isso é um absurdo! Sem os condimentos a pizza perde parte do seu valor agregado.”. No momento da afobação, nem parei para pensar no que ele havia dito. Contudo, já no carro voltando para casa, pensei. “Mas por que diabos ele falou aquilo?” Tudo bem, a pizza de fato perdeu parte do seu valor agregado. No entanto, de onde eu venho – e acredito que viemos todos do mesmo lugar, exceto no caso dos políticos os quais não sabemos de onde vem mas sabemos para onde vão – existiam formas mais simples para descrever a situação. Ou seja, é preciso ter o discernimento para saber até onde vai o “corporativês” e onde começa o “mundo real”, digamos assim. Ou você acha que na sexta-feira à noite, alguém liga para o parceiro ou parceira e marca uma “reunião no barzinho da esquina”, para quem sabe depois poder “discutir e analisar o crescimento do market-share” de um na vida do outro? É no mínimo patético. O escritor francês François Rabelais, que tinha um saudável desprezo pelas formalidades, especialmente as jurídicas, certa vez disse: “O mal da maioria dos juristas é que eles têm excesso de palavras na língua e muito pouca sabedoria.”

Sabedoria é uma arte. Não é exclusividade dos idosos, ou pessoas que foram submetidas a complexas experiências de vida. É preciso conhecer a si mesmo profundamente, antes de se inserir em qualquer contexto, ou principalmente, tentar analisá-lo. E isso é possível para qualquer ser humano, independentemente de faixa etária, classe social, religião ou qualquer outra categorização que exista. Sensibilidade e tolerância. Essas são as palavras de ordem. Deve-se saber do quanto a linha que divide nossa vida profissional e pessoal é tênue, porém existente. Do contrário, nos tornaremos pessoas chatas e pedantes, que verborragicamente discutem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, reconhecendo os demais como meros conjuntos de especialidades e títulos de graduação, em vez de seres humanos. O autor inglês Henry Fielding descreveu esse significado de forma grandiosa: “Há no pior de nós tanta bondade, e no melhor de nós tanta maldade, que mal será querer a todo instante, descobrir falta em nosso semelhante.”