Entrando pela toca do coelho

Hoje eu começo uma nova iniciativa – entre tantas outras abarrotadas nas poucas 24 horas do meu dia. “Entrando pela toca do coelho” é o nome dessa iniciativa. Trata-se de uma coluna semanal que publicarei aqui no blog. Qual a ideia? Bom, primeiro de tudo, despejar um pouco das ideias e pensamentos que permeiam essa pequena cabeça – bondade minha – que não para. Segundo, porque eu gosto de escrever. Terceiro… Bom, o terceiro espero descobrir mais adiante. A ideia é que as colunas sejam publicadas todas as segundas, mas hoje, excepcionalmente, começarei em uma terça. Isso é parte de uma estratégia? Há um significado subliminar nessa disruptura de planos? Não, na verdade já estava com o texto pronto, o blog começaria na próxima semana, mas resolvi publicar hoje mesmo. Voilá!

E hoje abro essa nobre e promissora coluna – assim espero – pensando sobre como é interessante como o mundo profissional está se confundido com a vida pessoal de cada um de nós. Vivemos em um tempo confuso, onde práticas de liderança são levadas para dentro das nossas casas. Tratamos nossos filhos como comandados, somos seus líderes e gestores, buscando como objetivo principal o seu sucesso pessoal entre o universo competitivo que é o Jardim da Infância. Mas, como assim? Competitividade na escola? Entre crianças de três a nove anos? Aparentemente sim. Afinal de contas, ninguém quer que seus filhos não saibam “quem mexeu em seus queijos”, ou que eles não consigam “fazer amigos e influenciar pessoas”. Não deixo de me perguntar: se formarmos tantos líderes como desejamos, não sobrará ninguém para ser liderado. Ou seja, fora a prática meramente mercantilista dos que difundem a liderança como produto de prateleira, o propósito é no mínimo questionável. A confusão é generalizada.

Outro dia, fui com um amigo a uma pizzaria. Chegando lá, a sentarmos a mesa, percebemos que não tinham aqueles potes de saches com ketchup, mostarda e maionese. Sem hesitar, perguntei ao garçom se ele poderia trazer os condimentos. Um tanto quanto desconfortável, o rapaz me respondeu que o estabelecimento estava cobrando pelos molhos. Levantamos e fomos embora. Na saída, entre uns resmungos e protestos, meu amigo largou a pérola: “Isso é um absurdo! Sem os condimentos a pizza perde parte do seu valor agregado.”. No momento da afobação, nem parei para pensar no que ele havia dito. Contudo, já no carro voltando para casa, pensei. “Mas por que diabos ele falou aquilo?” Tudo bem, a pizza de fato perdeu parte do seu valor agregado. No entanto, de onde eu venho – e acredito que viemos todos do mesmo lugar, exceto no caso dos políticos os quais não sabemos de onde vem mas sabemos para onde vão – existiam formas mais simples para descrever a situação. Ou seja, é preciso ter o discernimento para saber até onde vai o “corporativês” e onde começa o “mundo real”, digamos assim. Ou você acha que na sexta-feira à noite, alguém liga para o parceiro ou parceira e marca uma “reunião no barzinho da esquina”, para quem sabe depois poder “discutir e analisar o crescimento do market-share” de um na vida do outro? É no mínimo patético. O escritor francês François Rabelais, que tinha um saudável desprezo pelas formalidades, especialmente as jurídicas, certa vez disse: “O mal da maioria dos juristas é que eles têm excesso de palavras na língua e muito pouca sabedoria.”

Sabedoria é uma arte. Não é exclusividade dos idosos, ou pessoas que foram submetidas a complexas experiências de vida. É preciso conhecer a si mesmo profundamente, antes de se inserir em qualquer contexto, ou principalmente, tentar analisá-lo. E isso é possível para qualquer ser humano, independentemente de faixa etária, classe social, religião ou qualquer outra categorização que exista. Sensibilidade e tolerância. Essas são as palavras de ordem. Deve-se saber do quanto a linha que divide nossa vida profissional e pessoal é tênue, porém existente. Do contrário, nos tornaremos pessoas chatas e pedantes, que verborragicamente discutem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, reconhecendo os demais como meros conjuntos de especialidades e títulos de graduação, em vez de seres humanos. O autor inglês Henry Fielding descreveu esse significado de forma grandiosa: “Há no pior de nós tanta bondade, e no melhor de nós tanta maldade, que mal será querer a todo instante, descobrir falta em nosso semelhante.”